
Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. O travo da colheita literária de 1945 nota-se facilmente: por exemplo, no culto do “amor” e da “sinceridade”. Pacheco era o sobrevivente de um grande drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O’ Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o “surrealismo” foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (muito bem explicada por Eduardo Lourenço, da mesma geração). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco, em diários, cartas, crónicas e ficções, fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade.
Numa literatura colonizada por “antifascistas” e académicos, uns e outros muito cheios com a sua própria respeitabilidade, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do “desgraçado” que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o “ismo” necessário para arrumar tudo isso: “neo-abjeccionismo”. Nesta lenda do “escritor maldito”, cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia talvez um toque defensivo. O “maldito”, por definição, não concorria a prémios nem destaques: por outras palavras, não fazia sombra a ninguém. Sem quase nada a perder, também pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde Pacheco conduzir a “guerrilha” que o tornou célebre.
Para entender esta guerrilha e esta celebridade, convém lembrar que o grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado “meio” levava a sério os “grandes autores” do momento. Em público, porém, todos, especialmente os que tinham ambições, faziam as esperadas genuflexões. Pacheco, não. Imprimiu a “má língua”, lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um “mercado livre das Letras”. Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam. Deu, de algum modo, voz irreverente a um silêncio reverente.
Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como “libertino”, versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe “graça”. A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu.
Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da “nossa terra”. Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, a narrativa Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (na versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o narrador só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e em lá chegando fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido “auto”, tem uma ideia para “legalizar” o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do narrador passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.
Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não era (é) assim?
[Rui Ramos]
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Artigo de quarta-feira no Público editado para o Blogue Atlântico
Ilustração de André Carrilho para a capa de Figuras, figurantes e figurões, da colecção Inéditos da Imprensa, organizados por Vasco Rosa para o semanário O Independente



