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Acerca de mim

" Muitas vezes, meu caro senhor, as aparências iludem, e quanto a pronunciar uma sentença sobre uma pessoa, o melhor é deixar que seja ela o seu próprio juiz. " Robert Walser

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Portugal de Luíz Pacheco


Morreu Luiz Pacheco, aos 82 anos. Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que quando era bom, era mesmo muito bom – melhor do que a maior parte dos literatos seus contemporâneos, mortos e vivos. O Libertino passeia por Braga ou O Teodolito justificam todos os elogios. Fátima ou o amor louco, com apenas seis páginas na última edição de Exercícios de Estilo, é talvez a mais directa e melancólica história de amor escrita por cá no último século.
Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. O travo da colheita literária de 1945 nota-se facilmente: por exemplo, no culto do “amor” e da “sinceridade”. Pacheco era o sobrevivente de um grande drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O’ Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o “surrealismo” foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (muito bem explicada por Eduardo Lourenço, da mesma geração). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco, em diários, cartas, crónicas e ficções, fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade.
Numa literatura colonizada por “antifascistas” e académicos, uns e outros muito cheios com a sua própria respeitabilidade, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do “desgraçado” que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o “ismo” necessário para arrumar tudo isso: “neo-abjeccionismo”. Nesta lenda do “escritor maldito”, cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia talvez um toque defensivo. O “maldito”, por definição, não concorria a prémios nem destaques: por outras palavras, não fazia sombra a ninguém. Sem quase nada a perder, também pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde Pacheco conduzir a “guerrilha” que o tornou célebre.
Para entender esta guerrilha e esta celebridade, convém lembrar que o grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado “meio” levava a sério os “grandes autores” do momento. Em público, porém, todos, especialmente os que tinham ambições, faziam as esperadas genuflexões. Pacheco, não. Imprimiu a “má língua”, lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um “mercado livre das Letras”. Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam. Deu, de algum modo, voz irreverente a um silêncio reverente.
Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como “libertino”, versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe “graça”. A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu.
Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da “nossa terra”. Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, a narrativa Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (na versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o narrador só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e em lá chegando fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido “auto”, tem uma ideia para “legalizar” o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do narrador passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.
Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não era (é) assim?
[Rui Ramos]
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Artigo de quarta-feira no Público editado para o Blogue Atlântico
Ilustração de André Carrilho para a capa de Figuras, figurantes e figurões, da colecção Inéditos da Imprensa, organizados por Vasco Rosa para o semanário O Independente

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O ídolo dos crentes



" Margarida é uma das mulheres fatais, que atraem irresistivelmente. Solteira, homem que por desgraça a fitou quer ser um Romeu; casada, não faltariam Werthers que rebentassem o crânio para lhe merecer uma saudade.

No cortejo brilhante não faltava desde o primeiro titular, ao brasileiro sem títulos, coisa rara em sublunares regiões. Ela era o ídolo acatado de todos os crentes.

Mas para que estará no baile tão triste e distraída ? Pousa melancolicamente a cabeça no ombro do par, e nem lhe percebe as palavras amorosas, naquela rêverie feminil, que é para o homem que ama um inferno de torturas. "

Excerto do conto " Os Canibais ", de Álvaro do Carvalhal, incluído em "6 Contos Frenéticos", Ed. Arcádia,1978

Possua-me



" Entraram e Dick fechou a porta. Rosemary manteve-se muito perto dele, sem o tocar. A noite roubara-lhe a cor do rosto... Estava agora muito pálida. Lembrava um cravo branco abandonado depois de um baile.

- Quando você sorri... Penso que darei sempre pela falta de um dos seus dentes de leite...

Dick recuperara a sua atitude paternal, talvez devido à proximidade silenciosa de Rosemary.

Mas era tarde... Ela aproximou-se ainda mais dele e soltou um suspiro de abandono.

- Possua-me.

- Possuo-a como?

O espanto gelou-o.

- Continue - murmurou ela. - Oh, por favor, continue, seja o que for que aconteça. Não me importo de não gostar... Nunca esperei gostar... Sempre detestei pensar nisso, mas agora não. Quero que me possua. "

Excerto de " Terna é a Noite ", de F. Scott Fitzgerald, Trd. Maria Filomena Duarte, Ed. Presença,1987

domingo, 6 de janeiro de 2008

Em homenagem a Luiz Pacheco

Giulio Pipi

Viver sem amarras

" Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...) "

Excerto de " Comunidade ", de Luiz Pacheco, Contraponto, 1964

No dia da morte de Luiz Pacheco(1925-2008), ver aqui site não oficial.

Música sem amarras

Radiohead - Scotch Mist


A film with Radiohead in it made for New Year's Eve, 2007. Features every song on their new album IN RAINBOWS, the "physical manifestation" out now in stores.
Adicionado em: 1 de janeiro de 2008